A SIMBÓLICA DO RITUAL DE ABERTURA DA LOJA

FRANCISCO ARIZA

O ritual de abertura e fechamento da Loja maçônica é, junto com os catecismos ou manuais de instrução e com os símbolos que aludem à construção, o único legado (mas sem dúvida inapreciável) que a Maçonaria atual recebeu da antiga Maçonaria operativa. Tal legado permitiu que se continuasse conservando a descrição simbólica da cosmogonia e, por conseguinte, a possibilidade de acessar seu conhecimento e compreensão. Desta maneira o fundamental da Arte Real maçônica, que exemplifica o processo que conduz a esse Conhecimento, perpetuou-se através do tempo e, com ele, o Espírito desta organização iniciática do Ocidente. Esta seria a principal razão de que a Maçonaria continue sendo uma tradição viva com todos os elementos necessários para fazer efetiva a realização espiritual. Por outro lado, que muitos membros da Maçonaria ignorem o verdadeiro conteúdo iniciático e esotérico da Ordem à qual pertencem, em nada altera a validade da iniciação maçônica, nem diminui sua força para quem está interessado realmente em um trabalho interno sério e ordenado, e saiba ver além da aparência formal e "institucional" com que se reveste e "cobre" esta tradição para expressar a primordialidade de sua mensagem, que constitui sua essência e sua razão mesma de ser.

Nesta primeira parte vamos nos cingir especialmente à simbólica do ritual de abertura da Loja, ritual que consagra, no verdadeiro sentido da palavra, os trabalhos que nela se cumprem. Efetivamente, mediante tal ritual, o que não era mais do que um lugar qualquer, torna-se um templo, isto é, um espaço sacralizado e significativo. Graças à ação das energias espirituais veiculadas pelos símbolos, palavras e gestos rituais, poderia se dizer que esse lugar é "transmutado" em algo essencialmente distinto do que era. Eis, portanto, a importância de que o ritual seja praticado o melhor possível, seguindo com a máxima escrupulosidade o que nele está prescrito, e sem alterar, suprimir ou modificar sem razão alguma nenhum dos elementos que o constituem, já que com o respeito aos mesmos reside precisamente a eficácia do próprio rito. Naturalmente isto não quer dizer que os gestos rituais se repitam de uma maneira "mecânica", senão que no momento em que são realizados, há que se compreender as idéias que veiculam, que falam de uma realidade arquetípica, sendo "uno" com elas, pois o rito não é outra coisa que o símbolo feito gesto. Por conseguinte, o ritual tem que ser vivido como o que realmente é, como um conjunto ou um todo ordenado e harmônico, onde cada uma das partes que o formam se correspondem mutuamente entre si. Trata-se, portanto, de um organismo que está vivo, e que atua de acordo aos estímulos que recebe, ou seja, enquanto é posto em prática de uma maneira consciente. É por isso que se uma dessas partes faltasse, o ritual inteiro se ressentiria, perdendo "força e vigor" a influência espiritual que através dele se transmite.

Para sua melhor explicação, podemos dividir o ritual de abertura em quatro partes:

– Assegurar-se da "cobertura" da Loja.

– Comprovar a regularidade iniciática dos assistentes e determinação do espaço simbólico.

– O "acendimento das luzes" e o traçado do quadro da Loja.

– Descrição do tempo simbólico e a consagração da Loja.

compasso cósmico
Robert Fludd, Utriusque Cosmi Historia T. II, 1619

Assegurar-se da "cobertura" da Loja
A abertura da Loja começa comprovando-se ritualmente a "segurança" ou "proteção" da mesma. Nisso consiste o "primeiro dever de um Vigilante em Loja", pois esta tem que estar plenamente "a coberto" das influências procedentes do mundo exterior ou profano. Tal cobertura assemelha o templo maçônico à "caverna iniciática", cuja simbólica está em relação com a idéia cíclica de ocultação e retirada da doutrina tradicional em um "lugar" inacessível aos "olhares dos profanos". Dessa cobertura se encarrega diretamente o Guarda do templo, oficial que, como a própria palavra indica, tem a função de "guardar" e "cobrir" o templo. Com o cumprimento de seu ofício, o Guarda do templo, ao atualizar a idéia que o símbolo manifesta, ritualiza a efetiva "separação" que necessariamente tem que existir entre esse mundo profano e a realidade do sagrado que se vivencia na Loja. Tal separação está assinalada simbolicamente pelo Pórtico da entrada, que conforme se diz "não está dentro nem fora da Loja". Trata-se então de um espaço "intermediário", lugar de "passagem" ou de "trânsito" entre o exterior e o interior do templo, entre o profano e o sagrado. Assim o indicam as "marchas" ou "passos" rituais que se efetuam da porta do templo até o meio das colunas J e B que sustentam o Pórtico. Precisamente, é nesse espaço intermediário onde se localiza o Guarda do templo, estando esse espaço sob sua custódia, velando-o (sem abandoná-lo em nenhum momento) para que os trabalhos maçônicos se desenvolvam e se cumpram em perfeita harmonia. Esta função faz do Guarda do templo um verdadeiro "guardião do umbral", entidade que impede a passagem aos que não estão qualificados para receber a iniciação, mas que ao mesmo tempo "abre" as portas do templo a quem verdadeiramente reúne as condições necessárias para recebê-la. Nos antigos rituais esta função também a cumpria o "Irmão Terrível", cujo nome é bastante ilustrativo a respeito.

Comprovar a regularidade iniciática dos assistentes e determinação do espaço simbólico
Uma vez o templo está "a coberto", procede-se a comprovar que todos os integrantes da Loja estão no lugar que lhes corresponde dentro dela, assegurando-se também que estejam em posse do sinal de "ordem", que forma parte dos "segredos" do grau, e que se refere à disposição interior adequada para receber o ensino tradicional veiculado pelos ritos e pelos símbolos. Em assegurar-se disso consiste o "segundo dever de um Vigilante em Loja". Neste sentido, se o Guarda do templo se encarregar da segurança "externa" da Loja, o Primeiro e o Segundo Vigilantes assumem sua segurança "interna". É por isso que o termo de 'vigilantes' (que inclui a idéia de estarem "acordados") com que se lhes designa, concorda perfeitamente com as funções respectivas destes dois oficiais, os quais, junto ao Venerável Mestre, representam as "três luzes" da Loja maçônica.

Eles "vigiam" a regularidade iniciática de todos os irmãos que se situam nas "colunas" de Meio-dia (o Sul) e Setentrião (o Norte), as quais não são outras que os lados compridos do retângulo da Loja. Para comprovar essa regularidade os dois Vigilantes percorrem suas respectivas colunas, o que se executa, como tudo na Loja, de uma maneira ritual. Efetivamente, para dirigir-se às colunas que estão sob sua vigilância (a do Meio-dia para o Primeiro Vigilante, e a do Setentrião para o Segundo Vigilante), ambos os oficiais têm que "cruzar-se" previamente no Ocidente (o Oeste), o que voltam a repetir quando passam por diante do Altar dos Juramentos, situado para o Oriente (o Este), retornando seguidamente a seus correspondentes estrados. É de se advertir que tal percurso constitui a primeira "circum-ambulação" ritual que se realiza na Loja, e com a qual se destacam de maneira clara os quatro pontos cardeais que determinam o espaço da mesma, compreendido entre as colunas J e B que sustentam o Pórtico até os três degraus que sobem ao oriente. Este espaço retangular constitui o que se denomina o Hikal, que é propriamente o plano-base da Loja (análogo ao plano horizontal do mundo), em toda a extensão do qual se levam a termo o desenvolvimento integral dos trabalhos rituais, quer dizer, onde estes se manifestam e são possíveis.

Mas essa determinação, ou "limitação" espacial, é 'traçada', se assim pode se dizer, previamente pelas saudações ou gestos rituais que os dois vigilantes fazem entre si durante a "circum-ambulação". Cada gesto descreve de maneira significativa um esquadro, sendo quatro no total: dois quando se saúdam no Ocidente e dois quando passam pelo lado do Oriente, ao que se denomina o Debir, situado a um nível superior ao plano-base do Hikal.

Esses quatro gestos "em esquadro" seriam análogos às quatro pedras de fundação de toda construção, a partir das quais poderá levantar-se todo o edifício. Precisamente, neste momento do ritual de abertura se trata de pôr os fundamentos, ou os alicerces, dos trabalhos que vão se realizar na Loja, sua base firme e "segura" sobre a qual estes trabalhos poderão ser consagrados. Efetivamente, só se os que "decoram" as colunas de Meio-dia e Norte estão em "seu lugar" e interiormente "à ordem", a Loja estará "devidamente coberta", e se poderá assim penetrar "nas vias que nos foram traçadas", quer dizer, no caminho que conduz à Luz do Conhecimento.

Pedra cúbica pontiaguda
Pedra cúbica pontiaguda (um lado)

A iluminação do Templo e o traçado do quadro de Loja
É esta Luz o que primeiro se solicita quando se entra nessas vias. E a luz que ilumina a Loja, como a que ilumina o mundo, procede do Oriente, onde está situado o Delta luminoso, símbolo por excelência do Grande Arquiteto do Universo. E é aos pés do Oriente onde os três principais oficiais da Loja (o Venerável Mestre e os dois Vigilantes) "unem-se" para "receber" a Luz que simbolicamente emana do Delta, o que é o mesmo que a recepção e transmissão ritual da influência espiritual, que através das respectivas funções destes três oficiais na verdade "dirigirá" os trabalhos da Loja. Ao menos assim deveria ser em uma oficina maçônica cujos membros foram o suficientemente conscientes da realidade sagrada que se expressa mediante o rito e o símbolo, assumindo-a em si mesmos e na medida das possibilidades de cada um.

Antes dissemos que a estes oficiais se lhes denomina também de "três luzes", querendo mostrar assim que eles, ou melhor suas funções, são os portadores do espírito que ilumina à Loja, ao qual a luz sensível simboliza de maneira manifesta. A este respeito, e conforme assinala Guénon, nos antigos rituais operativos se necessitava da reunião ou o concurso de três mestres para que uma Loja pudesse trabalhar regularmente, representando cada um deles um determinado arquétipo espiritual ou nome divino criador. Essa simbólica permaneceu na atual Maçonaria, e esses três mestres não são outros que o Venerável e os dois Vigilantes, cujas funções respectivas, como estamos vendo, vinculam-se com um atributo, aspecto ou nome do Grande Arquiteto: com a Sabedoria, o Venerável Mestre; com a Força, o Primeiro Vigilante; e com a Beleza, o Segundo Vigilante. E Sabedoria, Força e Beleza são os nomes que recebem as três colunas ou "três pequenas luzes" situadas no centro mesmo da Loja, e dispostas em forma de esquadro. Estas três colunas são chamadas também "estrelas" (alusão direta a sua simbólica celeste), que são feitas "visíveis" e presentes na Loja graças à invocação dos nomes divinos. O rito do acendimento [das luzes] destas colunas que acompanha às invocações, assinala o momento preciso em que a Loja, que até então permanecia em penumbras, fica plenamente iluminada, produzindo uma passagem das "trevas à luz". É, pois, um rito essencialmente cosmogônico, análogo ao Fiat Lux do Verbo, criando a ordem cósmica ao fecundar o caos primitivo, quer dizer, o conjunto de todas as possibilidades de manifestação que se atualizam graças a essa ação demiúrgica.

A invocação dos nomes divinos e o acendimento [das luzes] das três colunas, que conjuntamente levam a termo os três principais oficiais da Loja estão ritualizando, fazendo-o presente, esse gesto gerador do Arquiteto. Portanto, a abertura da Loja descreveria de maneira simbólica um processo análogo ao da criação do mundo. Por outro lado, o termo Loja procede do Logos, da Palavra ou Verbo, e também de termos lingüísticos que designam a luz, como o grego liké. De fato, o templo maçônico (como qualquer recinto sagrado) é uma imagem simbólica do cosmo, que por sua vez é o templo universal e a obra direta do Criador. E assim como Este "a tudo dispôs em número, peso e medida", a Loja se edifica com Sabedoria, Força e Beleza, ou com Fé, Esperança e Caridade, as três altas virtudes que se correspondem respectivamente com cada um dos três pilares. Na tríplice invocação se apela à Sabedoria do Arquiteto como a verdadeira artífice da obra da criação, à qual preside; a sua Força como a vontade que a sustenta e a regenera perenemente; e a sua Beleza como à energia que a "adorna" ao lhe imprimir as medidas exatas e harmônicas que formam sua ordem interna e externa, revelada fundamentalmente através das estruturas geométricas e simbólicas.

Com as invocações desses atributos divinos também se está recordando, ou reiterando na memória dos presentes, aquilo que se diz nos Salmos: "Se o Eterno não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam". Só depois dessas invocações, e graças ao influxo espiritual nelas contido, o espaço da Loja (do templo universal), previamente "enquadrado" pelas "circum-ambulações" dos dois Vigilantes, fica iluminado, ou ordenado, em toda a extensão do mesmo.

É a partir desse momento que se procede à abertura do Livro da Lei Sagrada (a Bíblia), e a dispor sobre ele o Compasso e o Esquadro, o qual leva a cabo o Experto da Loja, oficial ao qual se considera como o "guardião" do rito. O livro e os dois instrumentos, constituem as "Três Grandes Luzes" da Maçonaria, situadas encima do Altar dos juramentos, quer dizer, no ponto geométrico onde simbolicamente se efetua a união do céu e da terra, da vertical e da horizontal. Essa união está representada pela posição em forma de estrela do David, ou selo do Salomão, do compasso e do esquadro, ambos os símbolos respectivos do céu e da terra. A Loja aparece assim como o lugar onde se faz manifesta a conjunção céu-terra, e por conseguinte a comunicação entre o mundo superior e o mundo inferior. Neste sentido, recordaremos que na rica iconografia descrita nos quadros de Loja maçônicos em ocasiões aparece uma escada (símbolo do eixo) apoiando sua parte inferior no altar com as três grandes luzes, enquanto sua parte superior toca os céus. Ao integrante da Loja se lhe indica assim qual tem que ser o caminho que deve seguir em seu processo interno, um caminho vertical, para o "alto", sem esquecer, porém, que essa ascensão só é possível graças à compreensão da doutrina tradicional. Esta se articula e se expressa através do ensino veiculado pelo Livro da Lei Sagrada (que recolhe as revelações e teofanias transmitidas aos componentes da "cadeia tradicional"), e o Compasso e o Esquadro (instrumentos que servem para traçar as medidas prototípicas do Céu e da terra aplicadas à construção mediante o uso da geometria sagrada).

Imediatamente depois da aparição das "Três Grandes Luzes", o oficial Experto dispõe no meio do pavimento mosaico o quadro de Loja, assim chamado porque nele se reproduzem em escala as dimensões da Loja, que é um "quadrado comprido" ou retângulo, pois seus lados longos são exatamente o dobro de seus lados estreitos. Além disso, nesse quadro estão desenhados os símbolos e emblemas mais significativos do grau em que a Loja esteja trabalhando, seja no de aprendiz, no de companheiro ou no de mestre, os quais constituem a hierarquia iniciática da tradição maçônica. O quadro forma assim uma síntese visual e gráfica do ensino simbólico contido em cada um desses graus, eis porque, também, representa um suporte de meditação e concentração indispensável dentro desse mesmo ensino. O quadro de Loja poderia ser considerado como uma autêntica mandala maçônica. Recordaremos, neste sentido, que na antiga Maçonaria operativa o quadro de Loja era desenhado diretamente no chão, utilizando para isso o giz e o carvão. Este costume, que nós saibamos, já não se conserva na atual maçonaria (exceto no Rito de Emulação, no qual o traçado do quadro está acompanhado das leituras de determinados textos), que se foi chamada "especulativa" é precisamente por ter esquecido determinadas técnicas de transmissão da influência espiritual praticadas entre os antigos maçons, como é sem dúvida alguma o caso que nos ocupa. A importância de riscar diretamente o quadro de Loja deriva do valor que em si mesmo tem o gesto ritual como veículo dessa influência, pois sendo este o símbolo em movimento, o gesto ritual "atualiza" (sempre e quando se fizer conscientemente) a idéia ou energia-força nele contida de maneira potencial ou virtual. Por idênticos motivos, aquele que traça o quadro (o Experto) e todos os símbolos que o configuram, converte-se também em um veículo intermediário dessas mesmas energias. Poderíamos inclusive dizer que essa função veicular é desempenhada na realidade por todos os integrantes da Loja, que ao "contemplarem" o desenvolvimento ordenado do traçado executado pelo Perito participam por igual dele. Essa contemplação, ou "concentração" ritualmente cumprida, necessariamente tem que gerar um vínculo da ordem sutil entre todos e cada um dos membros da Loja, vínculo que uma vez estabelecido torna-se o suporte para a manifestação da influência espiritual. Compreender-se-á então por que é imprescindível a presença do Quadro da Loja durante o desenvolvimento dos trabalhos maçônicos, tendo em conta, além disso, que para os Operativos o lugar onde ele é depositado se convertia em uma autêntica "terra sagrada". Por isso o quadro ocupa uma posição central na Loja, exatamente no próprio meio do Hikal, sendo além disso o eixo ordenador ao redor do qual se efetuam as marchas ou "circum-ambulações" rituais, e se realiza o importante rito da Cadeia de União.

Descrição do tempo simbólico e consagração da loja
No momento em que o quadro foi esboçado, ou disposto sem mais em seu lugar correspondente como é o caso habitual, pode-se dizer que a Loja dispõe de todos os elementos necessários para que os trabalhos possam abrir-se "regularmente", pois "tudo está conforme ao rito". Como se destaca nos rituais, esses trabalhos começam a "Meio-dia em Ponto", quando o Sol se encontra em seu Zênite e sua luz cai em "perpendicular" ou em "prumo" sobre nosso mundo, sendo a verticalidade dessa luz um símbolo a mais do eixo invisível que une o Céu e a Terra. O Meio-dia é o momento em que o Sol detém seu curso no alto da abóbada celeste, fenômeno este que levado ao ciclo anual, repete-se durante os Solstícios de Verão e de Inverno, correspondendo-se este último com o Norte e a "Meia-noite em Ponto", quando esses mesmos trabalhos finalizam. A partir de meio-dia se inicia a curva descendente da luz solar, que encontra seu ponto mais baixo (nadir) na meia-noite. E o mesmo ocorre do Solstício do Verão ao de Inverno.

Considerado simbolicamente (quer dizer, estabelecendo as correspondentes analogias entre a ordem natural e a ordem espiritual) essa descida da luz solar expressa também a "descida" da influência sagrada no seio da organização iniciática, o que está formalmente ritualizado na invocação realizada "à Glória do Grande Arquiteto do Universo"1, e com a qual os trabalhos ficam definitivamente "consagrados". A este respeito, seria sem dúvida interessante recordar o que Guénon menciona no Rei do Mundo a respeito da "presença real" da Divindade no mundo manifestado. Textualmente diz: "É preciso assinalar que as passagens da Escritura onde se menciona especialmente (à Shekinah ou à "Glória") são sobretudo aqueles que tratam da instituição de um centro espiritual: a construção do Tabernáculo e a edificação dos Templos do Salomão e de Zorobabel2. Um centro semelhante, constituído em condições regularmente (o itálico é nosso) definidas, deveria ser, efetivamente, o lugar da manifestação divina, sempre representada como "Luz"; e é curioso assinalar que a expressão "lugar muito iluminado e muito regular", que a Maçonaria conservou, parece ser uma lembrança da antiga ciência sacerdotal que regia a construção dos templos"3.

Se tivermos em conta que os Templos de Salomão e de Zorobabel (que essencialmente são só um) consideram-se como os modelos do templo maçônico, compreenderemos então por que se invoca a "Glória do Grande Arquiteto" (isto é, sua "Presença") no momento de abrir e consagrar os trabalhos, com o que culmina este verdadeiro rito de fundação (periodicamente reiterado) que representa na realidade a abertura da Loja maçônica. Tradução: Igor Silva

 
NOTAS
1 Essa mesma invocação encabeça todos os documentos e escritos maçônicos.
2 No Prólogo do Evangelho de São João (patrono da Maçonaria) também se faz menção da "Glória", quando se diz: "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua "Glória". Assinalaremos que em algumas lojas que conservaram o espírito tradicional da Maçonaria, o Prólogo do Evangelho de São João é lido ante o Altar dos Juramentos e em presença das "Três Grandes Luzes" no momento de se abrir e consagrar os trabalhos.
3

O Rei do Mundo, cap. III.

 
 
HOME PAGE
 
ARTICULOS
 
DOCUMENTOS
 
LIBROS
 
 
 
 
©  G. L. O. L. y A. 2013