A SIMBOLOGIA DA FRANCO-MAÇONARIA
FRANCISCO ARIZA
2ª Parte

Lhegamos assim à primeira metade do século XVII, onde assistimos ao surgimento do movimento hermético-cristão ao qual se convencionou chamar de "iluminismo rosacruz". Este movimento, que concedia uma importância especial à invocação dos nomes divinos hebreus e cristãos, assim como às analogias e correspondências entre os três mundos ou planos da manifestação universal -corporal, anímico e espiritual- viria a ser decisivo para a gestação da Maçonaria especulativa. Os rosacrucianos, dentre os quais se encontravam autênticos homens de conhecimento do porte de Robert Fludd, Michel Maier e Juan Valentín Andreae (autor de As Bodas Químicas de Christian Rosenkreutz), eram, por assim dizer, o braço exterior e visível da enigmática "Ordem da Rosa-Cruz", da qual tomaram o nome. Esta sociedade hermética estava composta por doze membros (número primordial) que permaneceram sempre no mais completo anonimato, justificado pelas condições, cada mais vez mais adversas, provocadas pelo poder exercido de forma autoritária pela maior parte da nobreza e do dogmatismo inquisitorial. Este "Colégio Invisível da Rosa-Cruz", como igualmente se denominava, herdou, graças a organizações filo-templárias como a Fede Santa à qual pertenceu Dante, o essencial do simbolismo do Temple.

Durante os primeiros anos do século XVII o movimento rosacruciano estendeu as idéias herméticas por diversos Estados e Principados do Europa central, especialmente na Boemia e no Alto e Baixo Palatinado, fomentando um florescente, mas breve, período no qual se tentou perpetuar a cultura tradicional do Ocidente. Não obstante, tudo ficou truncado quando o movimento rosacruciano foi cruelmente dissolvido -como no caso dos templários- durante a "Guerra dos Trinta Anos", acontecimento este que supôs que a "Ordem da Rosa-Cruz", inspiradora desse movimento, desaparecera da Europa buscando refúgio na Ásia.1

Cabe aqui destacar duas coisas: primeira, o aspecto cruento que tomou a perseguição dos templários e dos rosacrucianos, aspecto esse que foi uma característica bastante frequente no Ocidente durante muito tempo, e que deve ser entendido, antes de mais nada, como a expressão de um gesto verdadeiramente sacrificial estreitamente ligado com os mitos solares, e que o próprio Cristo exemplificou com sua paixão e morte na cruz. Do mesmo modo, toda ação sacrificial sofre uma morte ritual seguida de um renascimento ou ressurreição (o sol repete este ato todo dia quando desaparece no Ocidente e volta a aparecer no Oriente), o que pode ser constatado em diversas histórias, incluindo as que se referem ao destino coletivo de todo um povo e das organizações iniciáticas e tradicionais. Segunda, o desaparecimento dos Rosa-Cruzes ocorreu exatamente 333 anos depois da destruição da Ordem do Templo (1314-1647).

Este número, 333, é um número cíclico, pois a soma de seus dígitos dá nove, que é o símbolo numérico da circunferência, que, por sua vez, simboliza um ciclo completo e fechado. Digamos, neste sentido, que o correto conhecimento da teoria dos ciclos é imprescindível para compreender o desenvolvimento histórico ao qual se circunscreve a vida dos povos e das civilizações, situando esse desenvolvimento em suas justas relações analógicas com os grandes ciclos cósmicos, relações que representam a expressão simbólica de tais ciclos no plano horizontal do mundo. Assim, pois, com a "Guerra dos Trinta Anos" finaliza um ciclo e começa outro: precisamente aquele que desembocaria na era de subversão dos valores tradicionais e sagrados que constitui o mundo moderno. De fato, com a desaparição dos Rosa-Cruzes acabaria de romper-se o laço que unia o Ocidente ao "Centro Supremo", ou seja, à Tradição Primordial das origens.

Assim sendo, não obstante também se possa considerar as coisas de outro modo, e atendendo ao que neste sentido diz um autor maçom "... Ásia designa apenas o Oriente, onde está situada desde sempre a Loja do maçom''.2 Sendo, desde logo, verdade que o "Colégio Invisível da Rosa-Cruz" se ocultou no Oriente físico, isso de forma nenhuma invalida que também o fizesse no Oriente simbólico e espiritual. Voltamos a repetir que os acontecimentos históricos, como todas as coisas, são sempre simbólicos, manifestando a nível sensível as realidades espirituais. A ordem metafísica e o natural não se negam -pelo contrário, se complementam- coadjuvando desta maneira à realização da harmonia universal, tendo sempre em conta, isso sim, uma preferência hierárquica do primeiro sobre o segundo, sem confundí-los.

Ao finalizar a Guerra dos Trinta Anos, e durante ela, muitos rosacrucianos abandonaram o continente instalando-se na Inglaterra e na Escócia, seguindo o caminho que três séculos antes haviam empreendido os templários, e buscando, como esses, refúgio nas lojas dos "irmãos franco-maçons". Significa dizer que estas relações tiveram suas consequências no simbolismo e rituais maçônicos, sobretudo em alguns símbolos e ritos onde se vê claramente a inspiração hermética e rosacruz. Por aquela época (século XVII) o caráter operativo da Maçonaria praticamente havia desaparecido, e, com ele, a perda das técnicas ritualísticas próprias do ofício de construtor e os conhecimentos simbólicos a elas vinculados, os quais ficaram sob posse de reduzidos grupos maçônicos, que em vista das condições adversas que se estavam apresentando, optaram por passar ao anonimato. Não obstante, achamos que essa perda ficou compensada, em parte, pela influência revitalizadora que a Maçonaria estava recebendo das diversas sociedades herméticas e de algumas das ordens de cavalaria iniciática que perduravam, ou foram-se criando, desde o final do período Medieval. O simbolismo arquitetônico ligado aos mistérios da cosmogonia seguiria vigente, pois constitui a senha de identidade da tradição maçônica; mas, a partir de então, esse simbolismo já só se aplicaria na edificação do templo interior. Quer dizer que havia quase desaparecido a "forma", mas não o espírito, o núcleo, a essência.

É certo, por outro lado, que a admissão indiscriminada de pessoas que não tinham mínimos conhecimentos sobre o que era verdadeiramente o simbolismo e a iniciação, foi criando, paralelamente, as condições que levaram à gestação de uma Maçonaria privada de sua dimensão espiritual, que é certamente a que a grande maioria de nossos contemporâneos conhece. Assim, durante o século XVIII e princípios do XIX, todas aquelas influências tradicionais recebidas durante anos foram, realmente, decisivas para a estruturação definitiva dos "sistemas" ou Ritos mais importantes da Maçonaria especulativa, entre os quais destacam por seu caráter tradicional, o Rito Escocês Antigo e Aceito, o Rito Escocês Retificado e o Rito de Emulação.

Este breve trajeto pelo tempo nos permitiu comprovar como a Maçonaria interveio nos feitos mais significativos da história de Ocidente, ajudando a tecer (muitas vezes de forma passiva e receptiva, é verdade, mas assim tinha que ser por razões que se nos escapam) a trama sutil da mesma durante os últimos setecentos anos.


Síntese simbólica da Ordem

Símbolos e Ritos
Como tradição sagrada que é, a riqueza simbólica da Maçonaria promove no homem a busca do conhecimento de si mesmo, além de lhe oferecer os meios e os métodos para chegar a ele, os quais, fundamentalmente, se expressam como uma didática que facilita o despertar da consciência, que restitui a lembrança de sua dimensão universal. Esse ensinamento pode ser classificado em: a) símbolos visuais e gráficos; b) símbolos sonoros e vocais; e c) símbolos gestuais ou ritos.

Entre os primeiros se encontram os de desenho geométrico, cuja diversificação é bem extensa, adequados à Maçonaria que costuma identificar-se com a própria geometria, palavra derivada de Gea (terra) e metrón (medida), ou seja "medida da terra", o que, consequentemente, se relaciona com o ofício de construtor (e de agrimensor), na medida que este delimita um espaço com o fim de realizar uma obra arquitetônica. Entre os símbolos gráficos e visuais destacaremos o chamado "quadro da Loja" que já é, por si só, uma síntese simbólica da Loja, e que de alguma maneira resume os ensinamentos iniciáticos contidos em cada um dos três primeiros graus maçônicos. Como todo símbolo que se refere às idéias de "enquadramento" ou "marcação", o quadro da Loja protege uma série de elementos de caráter sagrado destinados à meditação e contemplação. Nisto é semelhante aos mandalas ou yantras das tradições hindú e budista, modelos simbólicos que desenham uma imagem geométrica do universo. São, portanto, verdadeiros suportes de meditação, adequados para gerar no homem uma visão e um conhecimento de sua própria estrutura interior, refletida na estrutura do mundo. Dissemos que cada um dos quadros de Loja resume ou sintetiza o ensinamento do grau ao qual pertence, e isso é correto na medida em que nele se encontram os símbolos visuais e gráficos mais significativos e importantes. Trata-se das próprias ferramentas como o maço e o cinzel, o nível e a prumo, a régua de vinte e quatro divisões, o compasso e o esquadro. Também achamos o símbolo do Delta, a estrela pentagramática, o sol e a lua, a pedra bruta, a pedra cúbica e a pedra cúbica em ponta, o pavimento mosaico, o frontispício do templo com as duas colunas Jakin e Boaz destacadas de um e outro lado da porta de entrada da Loja, etc. Trataremos de algum destes símbolos.

Entre o segundo grupo de símbolos, os sonoros e vocais, encontramos as "palavras sagradas" e as "palavras de passe" (todas de origem hebraica e cristã) e as lendas dos distintos graus iniciáticos. As palavras sagradas se relacionam diretamente com o que, na Maçonaria se chama de "busca da Palavra perdida", que constitui o verdadeiro Nome do Deus inefável, e cuja reconstituição equivale a "reunir o disperso", quer dizer, harmonizar os distintos elementos do ser na unidade de seu princípio divino ou supraindividual. Todas as "palavras sagradas" que se dão do primeiro até o último grau, poderiam ser vistas como uma escala ordenada e hierarquizada que conduz à "Palavra de Vida", que não é outra senão o verbo interior luminoso e regenerativo propiciador do nascimento espiritual. Neste sentido, a vocalização das palavras sagradas na Maçonaria recorda, em certos aspectos, as técnicas de pronunciação dos mantras, em uso entre as tradições hindú e budista. Como se repetiu em diversas ocasiões, os mantras são sílabas e palavras de poder, geradoras de vibrações sutis que conferem a iluminação iniciática ao transmitir a potência do verbo divino imanente na própria realidade da vida cósmica e humana. As "palavras de passagem" estão estreitamente vinculadas às "palavras sagradas". Como sua própria definição indica, as palavras de passagem aludem ao simbolismo de passagem ou de trânsito, ou seja, contém uma chave que abre a porta de um espaço e tempo interior sagrado e qualitativo. Devemos dizer que cada uma das palavras e letras das línguas sagradas tem seu próprio valor numérico, e tudo junto, palavras e números, conformam a "ciência dos nomes", em si mesma um código simbólico que expressa as diferentes leituras da realidade nos distintos níveis e planos em que se manifesta. Quanto às lendas dos graus, há que vê-las como uma espécie de história sagrada da Maçonaria que permanentemente restitui a lembrança e a memória do tempo mítico das origens. São relatos exemplares, modelos a seguir pelo iniciado e através dos quais este se identifica com as façanhas e vivências de seus antepassados, reatualizando-as no tempo presente, que desta maneira adquire sua verdadeira qualidade.

E o terceiro grupo de símbolos refere-se, como se disse, aos ritos. E esta palavra, "rito", é idêntica fonética e etimológicamente ao sânscrito rita, que significa ordem. O rito seria, pois, a repetição de um gesto ou ato ordenado. Na realidade o rito iniciático (também religioso) é o próprio símbolo em ação executado conforme uma idéia ou arquétipo, e, por sua vez, o símbolo é a fixação de um rito primordial, tal qual o "gesto" do Grande Arquiteto criando o mundo. Se o trabalho com os símbolos gráficos e geométricos se baseia fundamentalmente na concentração e nos estudos de caráter intelectual, os ritos são uma série de gestos e posturas corporais que "fixam" no plano psicossomático do ser a energía-força que precisamente o símbolo geométrico veicula. Estes gestos rituais maçônicos são semelhantes aos mudras hindús e budistas, que através de certas posturas e gestos manuais descrevem uma linguagem sagrada articulada por uma cadência rítmica que é em si uma "música visual". Essa mesma relação símbolo-rito se pode estender também aos propriamente sonoros e vocais; tudo isso expressa uma unidade de pensamento e ação que deve encarnar-se na realidade cotidiana e diária, pois obviamente de nada serviria meditar na energia salutar dos símbolos se depois não a levamos à prática de uma maneira ordenada e consciente. Da mesma forma, o rito se realiza e desenvolve tanto no tempo como no espaço; no tempo porque os trabalhos maçônicos se realizam do meio-dia em ponto (zênite solar) até meia-noite em ponto (zênite polar); e no espaço porque tais trabalhos são feitos seguindo a direção dos quatro pontos cardeais, ou seja, do Oriente ao Ocidente e do Meio-dia ao Setentrião. Em tudo isso se reconhece uma estrutura circular e cruciforme que abrange conjuntamente a ordem do macrocosmos e do microcosmos, religados ambos pela recriação de um gesto ou rito comum.

Pois bem, essas três categorias de símbolos maçônicos (que por certo se encontram em todas as tradições) estão ordenadas pela lei qualitativa do número, já que tanto quando se desenha uma figura geométrica, se vocaliza um nome divino, ou se executa um gesto ritual, não se está senão manifestando um ritmo interior que, ao exteriorizar-se e plasmar-se na realidade concreta das coisas, toma necessariamente uma estrutura numérica. A este respeito, disse José de Maistre em seu livro "As veladas de São Petersburgo": "O Criador nos deu o número, e é pelo número que se manifesta para nós, assim como pelo número o homem se evidencia a seu semelhante; tira o número e tirareis as artes, as ciências, a palavra e, por conseguinte, a inteligência. Devolve-o, e reaparecerão com ele suas duas filhas celestiais, a harmonia e a formosura: o grito se converterá em canto; o estrépito, em música; o salto, em dança; a força se chamará dinâmica, e os traços, figuras".

A Loja, imagem do mundo
Em primeiro lugar, prestemos atenção ao sentido etimológico da palavra Loja: ela deriva de Logos, que é o Verbo ou Palavra, que emitida no mundo o resgata das trevas e do caos, criando assim a possibilidade da manifestação e da ordem universal. Igualmente, "Loja", se não etimologicamente mas quanto a seu sentido simbólico, é idêntica à palavra sânscrita loka, que quer dizer "mundo", "lugar" e, por extensão, "cosmos". Por outro lado, também se dá uma identidade entre Loja, Logos e o grego lyke, que significa "luz".
 

Aqui temos, em resumo, o que distingue a Loja maçônica: um espaço iluminado, mas iluminado interiormente graças à influência espiritual transmitida pela iniciação. Daí que a Loja se assemelhe à "caverna iniciática", termo que se utiliza em diversas tradições para designar o que há de mais central e oculto no cosmos: seu próprio coração. Como a caverna iniciática, ou o athanor hermético, a Loja permanece protegida e a coberto do mundo profano e das "trevas exteriores", que jamais penetrarão nela porque na realidade se encontra situada em outro plano. Explicando melhor: não se trata de um "lugar" no sentido literal, mas sim da consciência interna onde habita o mistério do alma humana. Evidentemente existe uma Loja concreta e física, que pode estar situada em qualquer rua de qualquer cidade de qualquer nação, e que pode mudar de localização tantas vezes quanto se queira. O importante é que o templo exterior simboliza com imagens mnemônicas e evocadoras nosso próprio espaço e tempo interior. Além das aparências deve penetrar-se no que estas velam e ocultam, pois do que se trata, realmente, é de conhecer o "Templo que não está feito por mãos de homem", como dissemos anteriormente.

A forma da Loja é a de um quadrado longo ou retângulo, cujo comprimento é o dobro da largura. Tridimensionalmente seria um paralelepípedo, figura geométrica que, para Platão, dava as proporções e relações harmônicas do universo. De fato, na Loja maçônica se dão uma imensidão de correspondências simbólicas que tecem um conjunto perfeitamente tramado onde é possível perceber a harmonia do mundo. Nada neste templo é supérfluo nem foi posto por acaso, e cada símbolo ali presente, cada palavra ou gesto emitido, está refletindo um matiz particular dessa harmonia. Assinalaremos que o desenho da Loja maçônica parte da idéia diretriz marcada pelo "número de ouro" ou "divina proporção", regra que era utilizada pelos arquitetos medievais. Este número determina, a partir de um ponto central que se expande em um movimento logarítmico, as proporções harmônicas presentes em todos os organismos vivos, quer se trate, por exemplo, da estrutura corporal do homem, de uma flor, do caracol, da estrela do mar ou das espirais galáticas. Para os pitagóricos, o "número de ouro" manifesta a inteligência criadora da Mônada ou Unidade, o Hieros Logos, ou Grande Arquiteto, em sua ação, ou gesto, sobre a matéria caótica, plasmando-se nela as idéias de simetria e ordem, equilíbrio e beleza.

Por todo isso a Loja maçônica sintetiza a totalidade da vida universal, do cosmos manifestado, até ser como a transfiguração qualitativa deste. É, pois, uma imagem do mundo, uma Imago Mundi, um protótipo dele, reduzido à sua forma essencial. Nesse sentido, poderia aplicar-se à Loja maçônica aquela frase inscrita no templo de Ramsés II: "Este templo é como o céu em cada uma de suas dimensões e proporções". Por outro lado, a estrutura encompridada da Loja permite seguir o curso diurno do sol, o astro que ilumina a terra partindo do Oriente para o Ocidente, passando pelo Meio-dia ou Sul. Por tudo isso, e ao ser como uma imagem simbólica do universo, a Loja está ordenada pelas direções do espaço, que surgidas simultaneamente pela irradiação de um ponto central (o "Coração do Mundo") gera um sistema de coordenadas onde o alto, o baixo, o comprido e o largo formam a cruz de três dimensões, outro esquema simbólico do cosmos.

De tudo isso se deriva uma geometria espiritual bem conhecida pelos maçons operativos que, aplicando-a na orientação e disposição dos edifícios sagrados, faziam com que fossem penetrados pelos eflúvios e pelas forças mágicas da natureza e do cosmos. Do espaço íntimo e oculto da gruta ou caverna onde nossos antepassados pré-históricos oficiavam seus ritos e cultos sagrados, passando pela choça ou tenda ritual dos povos nômades e os templos construidos de madeira, até, enfim, os monastérios e catedrais, uma longa cadeia tradicional foi dando testemunho dessa vontade do homem por enquadrar e delimitar determinados espaços "carregando-os" de significado espiritual, de modo que refletissem na terra a própria ordem do céu.
 


Vitral da catedral de Chartres, s. XIII
Continuando com a descrição da Loja, observamos que no Oriente se acrescenta o Devir, que no Templo de Jesuralém ou de Salomão simbolizava o Sancta-sanctorum ou "Santo dos santos". O Devir tem forma de semicírculo, idêntico ao abside semicircular das igrejas e catedrais cristãs, o mesmo que o mihrab das mesquitas muçulmanas. Tal semicírculo é a projeção no plano horizontal terrestre da cúpula ou abóboda celeste. Todo o espaço restante da Loja, que vai desde a porta de entrada até onde começa o Devir, se denomina Hikal, que era o Sanctum ou "Santo" no Templo de Jerusalém. O Hikal está separado do Devir por três degraus, que aludem aos três graus iniciáticos de aprendiz, companheiro e mestre. Assim, pois, esses três degraus se referem à idéia de elevação gradual e hierarquizada a outros planos ou níveis superiores de realidade. De fato, no "Santo dos santos" se depositava o que havia de mais sagrado para o povo de Israel: a "Arca da Aliança", pequeno receptáculo, em si mesmo um modelo do cosmos, que "continha" os eflúvios e bendições emanados da divindade. Da "Arca da Aliança", como centro simbólico do mundo, espalhavam-se as bendições em todas as direções do espaço, comunicando-as, além dos muros e paredes do templo, para a cidade e o universo inteiro.

No lugar que aproximadamente corresponderia à "Arca da Aliança" está situado o Altar ou Ara, coração da Loja onde incide o eixo vertical que comunica o céu à terra. Também se chama "Altar dos juramentos", porque sobre ele se realizam os compromissos e "alianças" que o maçon contrai com a organização iniciática. Não em vão, sobre o Altar se encontra a Bíblia, ou Livro da Lei Sagrada, aberta nos versículos do livro dos Reis ou nas Crônicas, nos quais se mencionam a edificação e as medidas exatas do Templo de Jerusalém, ainda que também possa ser aberta no prólogo do Evangelho de São João, que começa com as palavras: "No Princípio era o Verbo...".

Os versículos do Antigo e do Novo Testamento se referem, pois, à construção do templo material e do templo espiritual, respectivamente; o primeiro como reflexo ou símbolo do segundo, pois existe antes que o próprio mundo, e nele residem eternamente a sabedoria e a inteligência do Sumo Fazedor. Sobre a Bíblia se depositam o compasso e esquadro, os dois emblemas maçônicos por excelência . Estas são as ferramentas ou utensílios que simbolizam o céu e a terra. Com o compasso se traça o círculo ou circunferência, figura geométrica que em todas as tradições é considerada como uma imagem do céu e do celeste. Com a esquadro se traça o quadrado, ou melhor, a cruz (que se forma pela união de dois esquadros unidos por seus respectivos vértices), inseparáveis da idéia de quaternário; assim: os quatro elementos, os quatro pontos cardeais, as quatro estações, os quatro períodos cíclicos da humanidade, as quatro fases da lua, os quatro períodos da vida humana, etc., isto é, tudo o que está relacionado com a terra e o terrestre. O compasso como "ciência do céu" e o esquadro como "ciência da terra", sintetizam os mistérios da cosmogonia, que são também os mistérios do homem compreendido em sua totalidade. Em uma gravura hermética atribuida a Basilio Valentino aparece a figura do rebis ou andrógino (união das energias contrárias numa só natureza ou substância) com um compasso em sua mão direita e um esquadro na esquerda, simbolizando assim a união do céu e da terra. Esta mesma representação iconográfica aparece em uma gravura chinesa onde se vê a figura andrógina do imperador Fo-Hi e sua irmã Niu-Kua, o que vem a confirmar a universalidade destes dois símbolos. A união entre o superior e o inferior, entre o céu e a terra, é representada na Maçonaria pela superposição e entrelaçamento do compasso e o esquadro, o primeiro com o vértice para cima e o segundo para baixo, assemelhando-se à "estrela de Davi" ou "selo de Salomão". Esta complementariedade, que não obstante mantém uma ordem hierárquica, está assinalada pela fórmula hermética de que "... o de cima (o macrocosmos) é como o de baixo (o microcosmos) e o de baixo como o de cima". Se a Bíblia, como livro sagrado, recolhe a revelação da Palavra, o compasso e o esquadro são as ferramentas que servem para aplicar o conteúdo espiritual dessa revelação na ordem da arquitetura. Bíblia, compasso e esquadro são as "Três Grandes Luzes" da Maçonaria, porque no estudo, na meditação e no uso ritual que delas se faz se vai iluminando a trilha que conduz ao Conhecimento.

Seguindo ainda para o Oriente, sobre a parede do fundo encontramos o Delta luminoso com o Tetragrama ou nome inefável de Deus no centro. Este Delta é um triângulo com o vértice para cima, figura que expressa a realidade dos princípios universais, uma vez que é a primeira estrutura arquetípica que se expressa em todos os planos da manifestação como uma força que cria, outra que conserva e uma terceira que destrói, ou melhor, transforma. Estas três idéias-força surgem da unidade primordial que fica simbolizada no Delta por um só olho que às vezes substitui ao Tetragrama, mas que refere-se ao sentido de presença imutável da deidade no próprio seio da manifestação. Ademais, a manifestação, da sua realidade mais sutil até a mais densa e material, está simbolizada pelas quatro letras que compõe o Tetragrama: IOD, HE, VAU, HE, correspondendo-se, cada uma delas, com os quatro níveis ou mundos que constituem a existência universal, e que são os mesmos que se encontram na Árvore da Vida cabalística. Neste nome divino fica, então, resumida a obra da criação em seu conjunto, e seu conhecimento se vincula diretamente com a busca da "Palavra Perdida".

Mas o templo, e neste caso a Loja maçônica, não é só uma estrutura estática -como tampouco o é o universo- mas dinâmica também, podendo ser visualizada como uma roda, imagem da "roda do cosmos" ou Rota Mundi. Isso está expressamente indicado pelas doze colunas ou pilares que cercam o recinto da Loja, e que equivalem aos doze signos zodiacais. Cinco destas colunas estão situadas no Setentrião, cinco ao Meio-dia, e as duas restantes (as colunas Jakin e Boaz) no Ocidente, justamente no pórtico da entrada. Diremos que o zodíaco (que quer dizer precisamente "roda da vida") é como o marco do universo visível, e seu movimento cíclico, unido ao dos planetas e demais constelações, influi na troca alternativa das estações e na manutenção e renovação da vida do cosmos e do homem. Disso se deduz que a Maçonaria não desconhece a antiga ciência da astrologia, que junto a da alquimia revela também os mistérios do céu e da terra.

As colunas Jakin e Boaz se vinculam à simbologia dos dois solstícios, e portanto, com as duas fases ascendente-descendente do ciclo anual. Elas se assemelham, assim, aos dois São João, o Batista e o Evangelista e, em consequência, à "porta dos homens" e à "porta dos deuses", respectivamente. Estas são as portas zodiacais de Câncer e Capricórnio, que correspondem à entrada do verão e do inverno, isto é, ao descenso e à ascenso da luz solar. As portas solsticiais cumprem um papel muito importante dentro do processo iniciático, que, não se deve esquecer, reproduz exatamente as etapas do desenvolvimento cosmogônico. Para os pitagóricos, pela porta de Câncer as almas penetram no "antro das ninfas", que é o mesmo que a caverna platônica, outra imagem do mundo. Ali se regeneram pelo conhecimento dos "pequenos mistérios". Pela porta dos deuses estas almas saem do cosmos para participar dos "grandes mistérios". Ou seja, a alma humana "... entra no mundo por uma porta e sai por outra, e no ínterim -assinado pelo espaço e o tempo- tem a oportunidade de reconhecer-se e escapar dessa condição pela identificação com outros estados do ser universal, que pode vivenciar por meio da consciência individual -semelhante à consciência universal- e que constituem a possibilidade da regeneração particular -e também da universal-, sempre, é claro, tomando como suporte a geração e a criação no espaço e no tempo".3 Esses dois processos são idênticos aos realizados por Cristo, cujo nascimento, paixão, morte e ressurreição, representam um arquétipo da iniciação. Esse mesmo processo pode ser visto também na mitologia de grande número de heróis e deuses solares, como é o caso de Osíris, Quetzalcóatl, Mitra e do próprio arquiteto Hiram. Com relação à vida de Cristo é interessante assinalar o dado, sem dúvida não casual, de que as iniciais das colunas Boaz e Jakin são também as iniciais de Belém e Jerusalém, as duas cidades que presidem o nascimento e a morte do Salvador, ou seja, o ciclo completo de sua existência humana.
 


Uma das marcas da Tipografía Platiniana
No centro da Loja se estende o "pavimento mosaico", tapete de quadros brancos e pretos exatamente igual ao tabuleiro de xadrez, cujas origens também são simbólicas como a da maioria dos jogos. O "pavimento mosaico" é, sem dúvida, um símbolo da manifestação que, efetivamente está determinada pela luta e delicado equilíbrio que, entre si, sustentam as energias positivas, masculinas e centrífugas (yang, luminosas) e as energias negativas, femininas e centrípetas (yin, obscuras), expressas também na alternância dos ritmos e ciclos vitais e cósmicos. Neste sentido, é ao redor do pavimento mosaico por onde se efetuam as circunvoluções rituais que os maçons realizam em Loja, seguindo assim uma ordem marcada pelos quatro pontos cardeais, as direções do espaço.

Por último, deve-se mencionar que no próprio meio do pavimento mosaico se dispõe o "quadro da Loja", que antigamente era desenhado no chão ao começar os trabalhos, e apagado quando os trabalhos eram finalizados. Já dissemos que este quadro é um esquema sintético de todo o templo maçônico, além de constituir um suporte simbólico para a meditação e a concentração. De fato, o quadro da Loja, ao conter em seu interior o desenho dos símbolos mais significativos e importantes, torna-se um veículo da influência espiritual na Maçonaria. Não é, então, casual que seja precisamente ao redor deste quadro (que é o ponto geométrico mais central do templo maçônico) que tem lugar o rito da "cadeia de união", na qual se invoca a potência criadora e iluminadora do Grande Arquiteto e, implicitamente, também a de todos os antepassados míticos e históricos que contribuiram na edificação do templo material e espiritual. E esta invocação vertical se realiza mediante a união encadeada e fraterna de todas as forças vivas presentes na Loja, isto é, de todos os "irmãos", que estabelecem assim uma comunicação sutil entre suas respectivas individualidades, servindo como suporte para a manifestação da influência sagrada.

Cabe mencionar, por último, que ao redor do "pavimento de mosaico" e do "quadro da Loja" se encontram os três pilares da Sabedoria, da Força e da Beleza. Esses pilares também recebem o nome de "três pequenas luzes", porque sobre cada uma delas arde uma pequena vela; são pois colunas de luz e de fogo, três nomes do Arquiteto diretamente relacionados com a construção do templo e do cosmos.

Mas não queríamos terminar sem oferecer um texto das Leituras do Rito de Emulação que resume belamente tudo o que até aqui dissemos sobre o templo maçônico: "Permita-me atrair vossa atenção sobre a forma da Loja, a qual é um paralelepípedo cujo o comprimento se estende de Leste a Oeste, a largura do Norte ao Sul e, a altura, da superfície da terra até seu centro, inclusive com tanta altura como os céus. "Uma Loja de maçons se descreve assim para mostrar a universalidade da Ciência e ensinar-nos que a caridade de um maçom não deve conhecer limites além dos da prudência . "Nossas Lojas devem estar orientadas de Leste a Oeste, porque todos os Templos dedicados à adoração divina, como as Lojas dos maçons estão ou devem estar assim orientadas. "O Universo é o Templo do Deus que servimos. A Sabedoria, a Força e a Beleza sustentam seu Trono como pilares de sua obra, porque sua Sabedoria é infinita, sua Força onipotente e sua Beleza resplandece na ordem e na simetria do conjunto da Criação. Ele estendeu os céus ao infinito, como um vasto dossel; dispôs a terra como uma tarima, coroou seu templo com as estrelas como um diadema e de sua mão irradiam a potência e a glória. O sol e a lua são os mensageiros de sua vontade e toda sua lei é a concórdia [o Amor]". Trad.: Sérgio K. Jerez


 
NOTAS
1 A palavra "sacrifício" procede do latim sacrum facere, um ato ou um fazer sagrado.
2  Jean Tourniac, Vie et perspectives de la Franc-maçonnerie Traditionnelle.
3  Federico González, La Rueda, una imagen simbólica del cosmos.

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